Slow down

No começo de 2016, a loja vintage À la Garçonne se tornou também marca de roupas, sob a direção criativa de Alexandre Herchcovitch, um dos estilistas mais consagrados da moda brasileira. Nesse pouco tempo já é uma das marcas brasileiras mais relevantes atualmente, com peças facilmente reconhecidas e vestidas por celebridades de Anitta a Mateus Carrilho, além de personalidades fashion como Camila Coutinho e Donata Meirelles.

Na mesma onda de grifes como a Vetements, cria parte de seus produtos em parcerias com outras marcas já consolidadas e investe forte na customização de peças vintage — tudo dentro de um conceito de sustentabilidade e slow fashion.

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Foto: Reprodução/ À lá Garçonne

Essa semana, a À la Garçonne inaugurou uma Pop up store dentro da Dona Santa, em Boa Viagem, por Juliana (Santos, dona da DSH) sentir interesse e necessidade do público recifense.

Na inauguração, conversei com Fábio Souza, fundador da ALG, sobre gerderless, o futuro da moda, as parcerias da marca e mais:

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A Pop up na Dona Santa | Santa Homem, projeto dos arquitetos Zezinho e Turíbio Santos. Foto: Reprodução/ Dona Santa

A ALG já existe como loja vintage desde 2009, mas a grife só foi lançada em 2016. Mesmo assim, já é uma referência, inclusive, com uma imagem de marca muito forte…

A ALG já nasceu com a intenção de ser uma marca que atendesse um lifestyle de maneira bem geral; a ideia é sempre ter de tudo, coisas pra casa e pro guarda-roupa. Minha história pessoal: Comecei com móveis, como profissão, e depois fui fazer roupa, numa marca chamada Alcides e Amigos, de 2004 a 2009. Em 2009, encerrei essa marca e abri a ALG, vendendo roupa vintage — não queria mais fabricar, já estava num processo interno, nessa ideia de sustentabilidade. Mas, eu sempre pensei que um dia voltaria a fazer roupa, só não sabia como. Aí quando o Alexandre (Herchcovitch) se desligou da marca dele, vi uma oportunidade de introduzir moda na minha marca e pensei: vamos customizar, usar tecido de estoque, tecidos esquecidos nas prateleiras das tecelagens, sobra de estoque… Tudo isso a gente faz girar, além de roupas vintages que a gente reutiliza.
Diferente do que o Alexandre fazia na marca dele, que mudava radicalmente o posicionamento de uma coleção para outra, na ALG as coisas são bem devagar – às vezes você viu algo lá no primeiro desfile e quatro desfiles depois você vê uma peça bem parecida. As peças tem um sentimento de continuidade que é positivo pro consumo, porque a pessoa compra uma coisa e não sente que daqui  6 meses ela está datada. É assim que tem que ser: bem slow down. Eu comecei a fazer esse movimento para agradar o consumidor e por isso não liquido —porquê quero que o consumidor sinta que ele fez bem em investir naquela peça que ele gostava tanto e ela não ficou datada na coleção seguinte, nem ficou mais barata, nada disso. Inclusive, as coleções ficam na loja por um ano. O meu pensamento é sempre um paço atrás e outro na frente. Toda coleção tem o processo de “um pouquinho do futuro e um pouquinho do passado”, para tentar atender o público consumidor e atingir aquele público que demora um pouco mais a assimilar. Isso ajuda a fortalecer o branding da marca.

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Foto: Reprodução/ FFW

A ALG foi uma das primeiras marcas grandes, do Brasil, a fazer moda genderless…

Eu acho que isso é fundamental agora, nesse momento  em que caminhamos para um milênio onde a gente vê que as crianças e os adolescentes não estão mais preocupadas com isso, essa binaridade. Os jovens já estão em outro movimento, porque as mulheres estão mais abertas a usar uma outra roupa e os homens também. Claro que a gente tá falando de uma pequena porcentagem da população, mas que tende a crescer e acho que esse é o futuro. O futuro não é mais eu sou isso ou eu sou aquilo. Eu sou uma pessoa, eu gosto “daquela pessoa” e não “daquele gênero”, acho que esse é o futuro.

E como é em termos de logística?

A gente consegue fazer isso em parte da coleção. Temos feito isso muito bem com oversized e tem dado muito certo mas, claro que não conseguimos fazer isso com tudo — até porque a gente talvez não veja um homem com um topinho de babado ou de brilho, por exemplo. Mas, se a gente cria uma saia masculina ou um vestido masculino, nesses casos, tentamos fazer do PP ao GG, porquê precisamos abraçar os dois lados. Então é tudo meio dentro do tamanho que já existe e dentro de uma possibilidade real de ver uma mulher com uma camisa masculina ou camisetão largo de rock, que não marca o corpo. Isso tudo já é uma cultura bem forte em lugares como o Japão, mas aqui no Brasil vai caminhando mais devagar, por conta da nossa cultura. Vejo sim uma mudança; as mulheres estão muito abertas, mas sem perder a feminilidade e a sensualidade que elas prezam tanto no Brasil e acho super válido. Desse jeito, a gente trabalha muito essa sensualidade fazendo, por exemplo, muita transparência — o excesso de lingerie ou ausência dela.

A la garçonne- Verão 2018

foto: Marcelo Soubhia /  Fotosite
Foto: Reprodução/ FFW

Você é, ao mesmo tempo, criativo e está por trás da parte mais administrativa da marca. Como isso funciona?

Nesse sentido a gente tem se dado super bem, porque o Alê é super criativo e não necessariamente ele quer saber se a peça vai ser um sucesso — ele acredita tanto naquela peça que quer fazer de qualquer jeito; eu já sou aquela pessoa que chega e faz assim: “Aaah essa peça… Vamos com calma, tem que ver se vai vender”. E isso é positivo porque você acaba ficando no meio do caminho e atingindo o público de uma maneira mais assertiva. Não é oito, nem 80 e a marca vai crescendo por isso.

A ALG apresenta suas coleções em formato see now, buy now — modelo que está sendo adotado por algumas marcas como forma de alavancar as vendas. Você realmente acredita nesse modelo?

 

É relativo, porque o see now, buy now funciona na maneira de apresentar mas, não de produzir, porquê você não tem como adivinhar o que as pessoas vão gostar e produzir com antecedência. Se você for chutar, tentar adivinhar, pode acabar com sobra de uma peça que você acreditava que ia vender bem e não vendeu. A gente mostra com antecedência pro atacado, vende, produz a coleção e mostra pro público na véspera da loja abrir. Essa é a questão do see now, buy now. Mostrar a coleção na véspera de a loja abrir é um sucesso; a marca já começou nesse movimento de mostrar e vender na sequência e foi ótimo. Hoje as pessoas querem ter a coleção no mesmo dia do desfile. Elas saem do desfile direto pra loja e ainda ficam bravas porque tal peça não chegou — a coleção não chega toda num dia, a gente vai colocando mês a mês, até pra entrar novidade sempre.

A la garçonne- Verão 2018

foto: Marcelo Soubhia /  Fotosite
Tênis da parceria ALG + Vans. Foto: Reprodução/ FFW

Muitas das coisas da ALG são produzidas por meio de parcerias…

A gente sempre se alia com parceiros e faz co-brandings. Isso é desde a primeira coleção e será cada vez mais, porque espero chegar um dia que eu não produza nenhuma peça, espero que tudo saia da fábrica de alguém que faz melhor do que eu. Por exemplo: para eu fazer um tênis, eu levaria anos até acertar. Então, me junto com a Vans e faço um trabalho bem mais bacana do que se eu fosse fazer do zero. O mesmo com alfaiataria, com lingerie, joia, bolsa… Um monte de gente bacana que eu me alio porquê eles já tem a expertise, fazem bem e tem qualidade.

E como você escolhe seus parceiros?

A escolha geralmente é por ‘afinidade x pensamento de marca’. É a expertise que eu não tenho — porque para você ter expertise em tudo tem que ter um atelier gigante e eu não quero ter um atelier com 200 pessoas costurando pra mim. Quero ficar livre para criar. Mas, eu só me alio com quem me dá liberdade de criação — ou porque a pessoa vai me dar o produto dela pra eu customizar, sem influência, ou a pessoa me dá carta branca e eu crio pra ela produzir. Claro que outra marca vai aprovar, porque a gente tá fazendo à quatro mãos, mas eu preciso dessa liberdade. Se eu desenhar e a pessoa me cortar… não funciona. Customizar é muito bom porque você meche com a sua criatividade para não tornar aquilo algo bobo. Por outro lado, também tem a possibilidade de fazer peças do zero, como fizemos peças de lingerie com a Hope, e ela deu total carta branca. Ela (a Hope) abre o know how dela em costurar lingerie e a gente entra com a criatividade.
A ideia é fazer parcerias de longevas, para que a pessoa sinta que aquilo tem um fundamento, que as marcas se conversam. Estamos sempre em busca de novos parceiros, porque um dia, sei lá, a ALG pode fazer carro. Eu quero que meu cliente, o que se identifica com o lifestyle da marca, encontre qualquer produto ALG e você não se surpreenda de me ver fazendo uma madeira ou um carro. Quero ter essa liberdade de não ficar preso num segmento.

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Fábio Souza e Alexandre Herchcovitch. Foto: Reprodução/ FFW

 

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